Carne de jacaré abre mercado para comunidade na Amazônia

Redação Plenário

Na Reserva Extrativista Lago do Cuniã, em Rondônia, moradores participam do manejo controlado da espécie para produção de carne e couro, dentro de regras ambientais e sanitárias. (Foto: Stephane Caut - Natgeo)

No Lago do Cuniã, em Porto Velho, manejo do jacaré-açu une conservação, produção de carne e couro e geração de renda para famílias que vivem em uma reserva extrativista

A cerca de 130 quilômetros de Porto Velho, uma comunidade amazônica transforma a convivência com o jacaré-açu em uma atividade capaz de gerar trabalho e renda. Na Reserva Extrativista Lago do Cuniã, em Rondônia, moradores participam do manejo controlado da espécie para produção de carne e couro, dentro de regras ambientais e sanitárias.

O protagonista dessa cadeia é o jacaré-açu (Melanosuchus niger), maior crocodilo da Amazônia. Machos adultos podem alcançar cerca de seis metros de comprimento. A espécie vive em rios, lagos, áreas alagadas e outros ambientes de água doce da região amazônica. Estudos realizados no próprio Lago do Cuniã também registram que a espécie pode atingir seis metros.

No Cuniã, os animais vivem soltos. Não se trata de criação em cativeiro. A captura depende do monitoramento da população, de critérios técnicos, cotas e autorização dos órgãos ambientais.

Esse modelo permite retirar parte dos animais sem transformar o manejo em caça sem controle. A continuidade da atividade depende da manutenção da população de jacarés e da conservação dos lagos e áreas de reprodução.

A Prefeitura de Porto Velho informa que o manejo de crocodilianos na reserva é regulamentado, auxilia no controle populacional e cria trabalho e renda para as comunidades tradicionais.

Carne e couro criam fonte de renda

A cadeia envolve captura autorizada, transporte, abate, inspeção, processamento da carne e aproveitamento do couro.

Em 2026, o projeto avançou com o licenciamento ambiental do abatedouro da Cooperativa de Moradores, Agricultores, Pescadores e Extrativistas da Reserva Extrativista Lago do Cuniã, a CoopCuniã. O Ibama emitiu a Licença de Operação nº 1692/2026 para a estrutura instalada na comunidade Silva Lopes Araújo. O Sebrae em Rondônia prestou apoio técnico ao processo por meio do Sebraetec.

Com o abatedouro, a comunidade passa a ter uma estrutura para organizar etapas da cadeia dentro do território. A carne pode abastecer o mercado de alimentos e a gastronomia, enquanto o couro possui outra destinação comercial.

Atividade é regulamentada, contribui para o controle populacional e equilíbrio ambiental. (Foto: Secom PM PVH RO)

O diretor técnico do Sebrae em Rondônia, Carlos Eduardo Sakagami, resumiu a proposta ao acompanhar o trabalho no Cuniã. “É um modelo em que preservar e produzir não são caminhos opostos.”

Para os moradores, o avanço representa a possibilidade de transformar conhecimento sobre o território e a fauna em receita. Isaías Lopes dos Santos, morador da reserva e cooperado da CoopCuniã, afirmou durante um abate-teste. “A comunidade vê esse avanço como valorização de um trabalho que sempre respeitou a natureza e agora ganha visibilidade.”

Carne do Cuniã busca valor pela origem

Outro passo é diferenciar a carne pela procedência. O produto está em processo de construção de uma possível Indicação Geográfica, a IG. Um diagnóstico realizado em 2025 apontou potencial para o reconhecimento. A nova etapa está prevista para ocorrer entre 1º e 6 de setembro de 2026 na própria reserva.

A eventual concessão depende do Instituto Nacional da Propriedade Industrial, o INPI. A IG pode associar o produto ao território, ao modo de produção e ao conhecimento da comunidade.

Para o Cuniã, isso pode representar uma mudança comercial. Em vez de vender apenas carne de jacaré, os produtores passam a trabalhar para oferecer um alimento identificado pela origem amazônica e pelo sistema de manejo.

Pescador no lago Cuniã, localizado na margem esquerda do rio Madeira, em Rondônia. A construção de hidrelétricas ao longo da bacia do Madeira diminui a oferta de peixes e leva à população a buscar outras formas de sustento – como garimpo e extração de madeira. (Foto de André Dib – Natgeo)

Jacaré vivo também movimenta a economia

A geração de renda não depende apenas do abate. O Lago do Cuniã também faz parte de uma estratégia de turismo de base comunitária. O objetivo é ampliar atividades como transporte fluvial, alimentação, hospedagem, condução de visitantes e observação da fauna. Prefeitura e Sebrae trabalham na estruturação do destino para o mercado turístico.

Nesse caso, o jacaré possui valor econômico sem sair da água.  O visitante pode conhecer os lagos, observar animais e entrar em contato com o cotidiano das famílias. A receita pode alcançar moradores que não participam diretamente da captura e do processamento.

O prefeito de Porto Velho, Léo Moraes, afirmou ao anunciar a parceria para o turismo. “O Lago do Cuniã é um dos maiores patrimônios naturais de Porto Velho e merece ser reconhecido pelo mundo.”

Uma economia ligada à floresta

As famílias do Cuniã já trabalham com pescado, farinha, castanha e outros produtos da floresta. O jacaré acrescenta outra fonte de receita a essa economia. A diferença está na relação entre produção e conservação.

Para continuar vendendo carne e couro, é necessário manter uma população de jacarés que permita o manejo. Para atrair visitantes interessados na fauna, os animais precisam permanecer nos lagos. E as duas atividades dependem da conservação dos ambientes aquáticos.

No Cuniã, um jacaré-açu passa a representar duas possibilidades econômicas para uma comunidade amazônica. Uma parcela da população pode entrar na cadeia de carne e couro sob manejo autorizado, enquanto os animais que permanecem na natureza ajudam a movimentar o turismo.

É nesse encontro entre biodiversidade, alimento e renda que uma comunidade de Porto Velho tenta levar um produto da floresta para novos mercados dentro e fora do Brasil.

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