Um levantamento no TSE mostra quanto cada candidato multiplicou o patrimônio nos últimos anos e revela de onde sai o dinheiro que movimenta a política do estado
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) liberou as declarações de bens dos quatro candidatos ao governo de Rondônia nas eleições de 2026. Os dados públicos do sistema Divulgacand (plataforma que divulga dados eleitorais dos candidatos) permitem comparar o patrimônio de hoje com o das eleições passadas.
A diferença entre eles não está só no valor final, mas ritmo de crescimento e evolução das riquezas em pouco tempo. A reportagem do Voz da Terra cruzou os dados para entender a origem e o tamanho da riqueza dos homens que vão cuidar do estado a partir de primeiro de janeiro de 2027, se eleitos.
Nas mãos do governador eleitor estárá um super orçamento. A Assembleia Legislativa de Rondônia aprovou a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para 2027 prevendo um orçamento consolidado de aproximadamente R$ 20 bilhões. O valor representa um crescimento nominal de cerca de 7,2% em comparação ao ano anterior, com estimativa de Receita Corrente Líquida em R$ 17,36 bilhões.
De acordo com o Divulgacand, esses são os dados da evolução patrimonial dos candidatos que disputam vaga no Palácio Rio Madeira:
Hildon Chaves do União Brasil (UB) lidera com folga. Em 2020, quando disputou a reeleição à prefeitura de Porto Velho, declarou R$ 20.357.001,50. Agora, na corrida ao governo, o valor sobe para R$ 30.330.625,02. O salto é de 48,9% em seis anos.
A maior fatia do patrimônio, R$ 26,8 milhões, está em participações societárias, aplicações financeiras e bens no exterior. O dinheiro tem endereço: o Grupo Athenas Educacional, rede de faculdades que Chaves passou a comandar em 2013, ano em que deixou o cargo de promotor de Justiça do Ministério Público de Rondônia.
Marcos Rogério mostra a curva mais expressiva no longo prazo. Em 2008, quando disputava vereança em Ji-Paraná, o patrimônio declarado era de R$ 168 mil: um Fiat 2001 e um imóvel de R$ 150 mil.
Em 2018, ao se eleger senador com 324 mil votos, o valor chegou a R$ 1.301.704,58. Multiplicação de 7,7 vezes em uma década. Em 2026, a declaração soma R$ 2.376.169,92, alta de 82,5% desde a última eleição ao Senado.
Entre os bens aparecem dois apartamentos, quotas em empresa agropecuária e aplicações financeiras. O senador virou notícia nacional em 2021, durante a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid no Senado Federal, quando apareceu no plenário com um Rolex Daytona avaliado em R$ 108.685. Um jornalista do The Intercept flagrou o relógio ao vivo.
Adailton Fúria tem a trajetória mais irregular. Em 2020, ao vencer a prefeitura de Cacoal, declarou R$ 684.103,56. Quatro anos depois, na reeleição, o valor mais que triplicou: R$ 2.091.074,34, alta de 205,6%. Agora, na disputa ao governo, o patrimônio declarado recua para R$ 1.665.086,74. Queda de 20,4% frente a 2024, mas ainda 143,5% acima do que tinha em 2020. Entre os bens estão terrenos em Cacoal e participação na empresa Auto Posto da Sete Ltda.
Expedito Netto percorreu o caminho inverso dos outros três. Em 2014, ao concorrer à reeleição na Câmara, declarou R$ 1,77 milhão, valor puxado por bens rurais em Rolim de Moura, entre eles um lote na Gleba Massaco, área que rendeu inquérito ao ex-governador Ivo Cassol por expulsão de camponeses.
Em 2018, o patrimônio despencou para R$ 89 mil. Queda de 95%. Em 2026, o valor sobe outra vez para R$ 351.226,00, alta de 294,6% frente a 2018, mas ainda 80% abaixo do pico de 2014. Netto é filho do ex-senador Expedito Júnior, presidente estadual do PSD e um dos nomes mais influentes da política rondoniense desde os anos 1980.
De onde sai o dinheiro?
A resposta muda conforme o ano. Até 2014, o financiamento de campanha vinha majoritariamente de empresas: só naquele pleito, o setor privado despejou mais de R$ 3 bilhões em doações no Brasil inteiro. Em 2015, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou a ADI 4650 e declarou inconstitucional a doação de pessoas jurídicas. A partir de 2016, esse dinheiro some do jogo.
No lugar entra o Fundo Eleitoral, batizado de fundão pela imprensa. Em 2018, o fundo somava R$ 1,7 bilhão. Em 2022, o valor quase triplicou: R$ 4,9 bilhões.
Em 2026, o montante se repete: R$ 4,9 bilhões, distribuídos entre 30 partidos conforme o tamanho da bancada eleita em 2022. Partido Liberal (PL) fica com a maior fatia, R$ 881,7 milhões. Partido dos Trabalhadores (PT) recebe R$ 615,4 milhões. União Brasil (UB) leva R$ 526,2 milhões.
Em Rondônia, o volume também salta aos olhos. No pleito de 2022, os candidatos do estado receberam mais de R$ 150 milhões em dinheiro público. Deputado federal concentrou R$ 59 milhões. Deputado estadual, R$ 20,3 milhões. Governador, R$ 16,5 milhões. Senador, R$ 11,37 milhões.
Para 2026, o teto de gastos por candidato ao governo é de R$ 6.226.082,16 no primeiro turno e R$ 3.113.041,08 no segundo, valores idênticos aos de 2022. Senador e deputado federal têm limite de R$ 3.176.572,53. Deputado estadual, R$ 1.270.629,01.
O quadro completo aponta duas fontes legais de recurso hoje: o dinheiro público do fundão e as doações de pessoas físicas, limitadas a 10% da renda bruta anual do doador. Empresa não entra mais nessa conta desde 2016.
O que muda de candidato para candidato não é a origem do financiamento de campanha, regulada e pública. É o patrimônio pessoal que cada um construiu antes, durante e depois dos mandatos, esse sim, com histórias bem diferentes entre si.
Diferenças financeiras entre os candidatos
Rondônia elege governador em outubro com quatro perfis patrimoniais que pouco têm em comum. Essa diversidade não é neutra do ponto de vista político: mostra que a riqueza declarada por cada candidato tem origem em atividades econômicas distintas, construídas antes da candidatura, e que a disputa reúne perfis muito desiguais de capital financeiro acumulado.
Hildon Chaves concentra a maior fatia isolada de patrimônio entre os quatro. Essa riqueza remonta a um negócio educacional que o candidato construiu ao longo de duas décadas e vendeu a um grupo do setor listado em bolsa de valores.