Cheia e seca expõem Porto Velho à nova rotina extrema do rio Madeira

Redação Plenário

Rio Madeira em Porto Velho, Rondônia. (Foto: Secom PVH RO)

Prefeitura tenta antecipar danos com alerta, assistência a ribeirinhos, combate a queimadas e obras verdes

Porto Velho vive um cotidiano que já não cabe mais na lógica de “período de chuva” e “período de seca”. O rio Madeira, um dos mais importantes da Amazônia, sobe, alaga comunidades, isola famílias e ameaça a produção rural. Meses depois, baixa de forma brusca, dificulta a navegação, aumenta o risco de desabastecimento e abre espaço para queimadas, fumaça e piora da qualidade do ar.

A capital de Rondônia passou a tratar esse ciclo como uma emergência permanente. A resposta da Prefeitura, na gestão Léo Moraes, combina monitoramento do nível do rio, atendimento a comunidades ribeirinhas, entrega de água e alimentos, ações contra incêndios, fiscalização ambiental e pequenas obras de drenagem urbana. O desafio é grande: Porto Velho tem território extenso, áreas urbanas vulneráveis e dezenas de comunidades ao longo do Madeira.

Em abril de 2026, o rio chegou a 15,10 metros, acima da calha de 15 metros. A Prefeitura decretou Situação de Emergência em áreas ribeirinhas e incluiu comunidades como Brasileira, Boca do Jamary, Belmont, Itacuã, Pau D’Arco, Bom Jardim, Mutuns, Maravilha I e II, Terra Firme, Ilha Nova, Ressaca, Conceição da Galera, Bom Fim, Santa Catarina, Pombal, Papagaios, Ilha de Assunção, Tira Fogo, Boa Vitória, Lago do Cuniã e Fortaleza do Abunã.

A Defesa Civil, a assistência social, a saúde, a agricultura e outras áreas passaram a atuar de forma conjunta. As equipes mapeiam famílias atingidas, perdas em lavouras, necessidade de cestas básicas, água potável, medicamentos e transporte. A lógica é simples: chegar antes que a cheia vire tragédia.

Léo Moraes apresentou o decreto como uma forma de dar base legal e agilidade à ação pública. “É uma medida que visa assegurar essas comunidades afetadas pela cheia do rio Madeira. O decreto ampara nossas equipes para cuidar melhor dessas pessoas que tanto precisam da presença do poder público nesses momentos”.

A cidade também tenta melhorar a comunicação sobre riscos. Em fevereiro, quando o Madeira marcava 13,59 metros e já estava em estado de atenção, a Prefeitura reuniu representantes das hidrelétricas de Samuel, Santo Antônio e Jirau, além do Ministério Público de Rondônia, para discutir um protocolo de alerta. A proposta foi de organizar informações sobre vazão, abertura de comportas e impacto nas comunidades rio abaixo. No mesmo período, houve registro de 52 milímetros de chuva em dois dias, segundo dados citados pelo Censipam.

Comunidades impactadas

Nas comunidades, a ajuda aparece em medidas decisivas. A Prefeitura distribuiu água, hipoclorito e cestas básicas. A orientação sanitária segue parâmetros do Ministério da Saúde: duas gotas de hipoclorito de sódio a 2,5% por litro de água, com espera de 30 minutos antes do consumo. Em áreas alagadas, este cuidado reduz risco de diarreia, hepatite A, cólera e outras doenças ligadas à água contaminada.

Outro eixo é a formação de moradores. A Prefeitura criou núcleos comunitários de proteção e Defesa Civil em localidades ribeirinhas. Moradores de Brasileira, Ramal 45, Caldeirita e Aliança receberam capacitação sobre primeiros socorros, prevenção de desastres, queimadas e leitura de risco. A ideia é fazer com que a própria comunidade reconheça sinais de perigo e acione ajuda com mais rapidez.

Quando o rio baixa, a crise muda de rosto. A seca traz fumaça, incêndios, dificuldade de transporte fluvial e risco de falta de água. Entre janeiro e maio de 2026, Porto Velho registrou 22 focos de incêndio, contra 106 no mesmo período de 2025, segundo dados do Programa Queimadas, do Inpe, divulgados pela Prefeitura. A queda foi de 79,2%.

A Secretaria Municipal de Meio Ambiente atribui a redução a uma combinação de fiscalização, resposta rápida, educação ambiental, abertura de aceiros, monitoramento e participação da população. O município também informou queda de 60% na poluição atmosférica na comparação entre 2024 e 2025.

Ações sustentáveis

O secretário Arthur Felipe Borin dos Santos afirma que o combate ao fogo depende de vigilância pública e ação comunitária. “Denunciar queimadas ilegais e adotar medidas preventivas são atitudes fundamentais para proteger Porto Velho durante o inverno amazônico. Neste período, planejamento, responsabilidade ambiental e ação conjunta entre poder público e comunidade serão decisivos para minimizar os impactos da seca e preservar a qualidade de vida no município”, disse.

Na área urbana, a adaptação também passa por soluções de menor escala. A Prefeitura ampliou a implantação de jardins de chuva, estruturas que captam e filtram a água antes que ela sobrecarregue bueiros e galerias. Cada unidade pode absorver cerca de 6 mil litros de água em 15 minutos de chuva intensa. O custo estimado varia de R$ 8 mil a R$ 12 mil por jardim. A cidade também ampliou iniciativas como o plantio de árvores nas microflorestas urbanas.

Léo Moraes defende a medida como alternativa rápida enquanto a cidade busca recursos para obras maiores. “O jardim de chuva tem o potencial de, em 15 minutos, absorver 6 mil litros de água. Sabemos que é necessário investir também em macrodrenagem, e já temos o projeto pronto. Estamos buscando recursos junto à bancada federal para colocá-lo em prática, garantindo mais qualidade de vida e segurança para nossa população”, afirmou.

Os números mostram a violência da oscilação do Madeira. Em abril de 2025, o rio chegou a 16,80 metros, perto da cota de transbordamento de 17 metros. Em agosto, caiu para 4,52 metros. A diferença foi de 12,28 metros em cerca de quatro meses. Em setembro, o nível ficou abaixo de 3 metros, com registro de 2,99 metros, o que levou a Defesa Civil a reforçar alertas à navegação e a preparar plano para distribuição de água potável, caso a estiagem avançasse.

Porto Velho se tornou uma vitrine dos extremos amazônicos. A mesma cidade que precisa retirar famílias de áreas alagadas também precisa enfrentar fogo, fumaça e seca severa poucos meses depois. A resposta pública ainda convive com limitações de território, orçamento e infraestrutura, mas já revela uma mudança de método: menos reação tardia, mais monitoramento, presença em campo e adaptação ao clima que deixou de ser exceção. 

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