Estudo revela que 90% dos cuidadores no Brasil são do sexo feminino; sobrecarga gera exaustão e abandono de estudos e carreira
As brasileiras dedicam 9,6 horas semanais a mais do que os homens em afazeres domésticos e cuidados com terceiros. O dado, extraído da Pnad 2022 do IBGE, revela um excedente que ultrapassa mil horas anuais de trabalho não remunerado. É um esforço vital para a sociedade, mas que permanece invisível e recai sobre as costas de filhas, esposas e netas.
Uma pesquisa da PUCPR confirma o cenário: nove em cada dez cuidadores informais no país são mulheres. A professora Valquiria Elita Renk, uma das autoras do estudo, pontua que essa dedicação interrompe trajetórias escolares e profissionais.
“Uma mulher para de estudar para cuidar dos irmãos, dos trabalhos domésticos. Faz isso todos os dias e, quando termina, recomeça no dia seguinte. É um trabalho que não tem fim.”
O exemplo estrangeiro e a realidade nacional
Enquanto o Brasil ensaia os primeiros passos com uma Política Nacional do Cuidado, outros países já tratam o tema como prioridade de Estado. Finlândia e Dinamarca pagam assistentes domésticos com verba municipal. No Reino Unido, há compensação financeira para quem deixa de ganhar renda para assistir um familiar. Já o Uruguai permite que as mulheres se aposentem mais cedo com base no número de filhos.
Para a pesquisadora, o cuidado vai além da higiene ou do remédio; envolve uma carga afetiva que sustenta toda a engrenagem social. Ela defende que esse tempo conte para a previdência, já que muitas mulheres abandonam o mercado formal para garantir o bem-estar da família.
Exaustão na “Geração Sanduíche”
O estudo ouviu mulheres do Paraná e de Santa Catarina que cuidam de idosos ou doentes. Muitas se sentem sozinhas e deprimidas, mas enxergam a tarefa como uma obrigação naturalizada. A maior sobrecarga atinge a “Geração Sanduíche” — mulheres que equilibram trabalho, casa, filhos e pais idosos ao mesmo tempo.
A pesquisa mostra que 61% das entrevistadas pararam de trabalhar para cuidar de parentes em tempo integral. A ética da responsabilidade faz com que elas coloquem as necessidades dos outros sempre à frente das suas, o que resulta em cansaço crônico e falta de lazer.
Educação para dividir a conta
A mudança desse quadro passa pela educação. O estudo defende que meninos e meninas aprendam cedo a dividir as tarefas domésticas. O objetivo é evitar que o peso do cotidiano recaia apenas sobre as mulheres no futuro. No campo jurídico, algumas decisões de divórcio no Brasil já começam a reconhecer esse esforço, com juízes que determinam o pagamento pelo tempo dedicado ao cuidado dos filhos.