Especialistas debatem a classificação dos eventos extremos e alertam para a redução dos intervalos entre os episódios
A comunidade científica diverge sobre a classificação dos episódios mais intensos do aquecimento das águas do Pacífico equatorial. Enquanto parte dos pesquisadores considera o evento de 2015-2016 como o último registro de grande magnitude, outros estudiosos incluem o período de 2023-2024 nessa categoria. A falta de consenso ocorre porque o termo “super El Niño” funciona como uma definição informal para anomalias térmicas que atingem ou superam os 2 °C acima da média histórica.
A escolha dos critérios de análise interfere diretamente na identificação de um padrão que preocupa os especialistas em clima. Os intervalos entre os eventos mais severos apresentam redução progressiva nas últimas décadas. O avanço do monitoramento indica que o tempo de descanso entre os picos de aquecimento caiu de quinze anos, na transição do final do século passado, para apenas três anos, caso as projeções atuais para o biênio 2026-2027 se confirmem.
De acordo com Pedro Ivo Camarinha, doutor em Mudanças Climáticas e Desastres e diretor substituto do Cemaden, “a atmosfera é, por natureza, um sistema caótico”. O especialista aponta que pequenas alterações nas condições iniciais ou na calibração dos modelos produzem resultados distintos. A agência de oceanos e atmosfera dos Estados Unidos indica 96% de probabilidade de persistência do fenômeno até o início de 2027, embora os modelos europeus projetem cenários ainda mais intensos.
Os impactos de um eventual aquecimento severo trazem reflexos estruturais para o território brasileiro nos próximos meses. Notas técnicas dos órgãos de monitoramento nacional preveem a redução de chuvas e o agravamento da seca nas regiões Norte e Nordeste. Para a Região Sul, os indicadores apontam maior propensão a volumes excessivos de precipitação e elevação do risco hidrológico em áreas vulneráveis, além do aumento na frequência de ondas de calor em todo o país.