Após perder casa, carro e emprego, homem de 42 anos relata alívio com a proibição das plataformas
“Um grande alívio.” Assim Kaio, de 42 anos, descreveu à Agência Brasil sua reação à proibição das bets, anunciada na sexta-feira (25). Ele relata que perdeu carro, casa e emprego por causa das dívidas com jogos.
Hoje, dorme no chão de um dormitório no interior de Goiás e mantém distância da família por medo de cobranças de agiotas. Neste ano, após seis anos de problemas com apostas, procurou um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), onde participa de grupos e consultas.
A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti do Hospital das Clínicas de São Paulo, afirma que a publicidade apresentou as apostas como complemento de renda e atingiu pessoas em situação de vulnerabilidade. “São pessoas que querem retornos rápidos induzidas a acreditar que podem ter isso com as bets. Isso se tornou realmente muito perigoso.” Kaio também relata que recebia mensagens das plataformas: “O celular não parava de trazer mensagens”.
O alcance dos jogos entre adolescentes aparece em levantamento da Equidade.info, a pedido da Frente Parlamentar Mista da Educação. Entre 1.912 estudantes de 191 escolas, 20,4% disseram já ter apostado pela internet.
A psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica a dificuldade de controlar esse comportamento durante o desenvolvimento. “O adolescente sente intensamente o prazer de ganhar uma aposta, mas ele, em contrapartida, ainda não dispõe do aparato para frear o impulso da aposta seguinte”.
O neurocirurgião Orlando Maia afirma que quem enfrenta a dependência nem sempre reconhece o problema: “Precisam de pessoas da família ou de amigos que possam ajudar”.
Após a proibição das plataformas, o Ministério da Saúde anunciou que ampliará o contato com apostadores para oferecer acompanhamento e tratamento. Segundo o ministro Alexandre Padilha, a iniciativa utiliza dados dos ministérios da Fazenda e da Segurança e da Receita Federal, além de atendimento pela rede do SUS.