Ferrovia da floresta mira título de Patrimônio Mundial da UNESCO na Amazônia

Redação Plenário

Ferrovia Madeira-Mamoré pode virar patrimônio mundial da Unesco. (Foto: Secom PVH RO)

Construída com o sangue de milhares de trabalhadores, ferrovia centenária de Porto Velho busca apoio do IPHAN para chegar à lista da UNESCO

PORTO VELHO (RO) — No coração da Amazônia, uma ferrovia de 366 quilômetros carrega uma das histórias mais dramáticas da engenharia mundial. A Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM) nasceu do Tratado de Petrópolis, assinado em 1903 entre Brasil e Bolívia. 

Como parte do acordo que incorporou ao território brasileiro a área hoje correspondente ao Acre, o Brasil se comprometeu a construir uma ferrovia que permitisse à Bolívia escoar sua produção, sobretudo borracha, contornando as cachoeiras do rio Madeira até os mercados internacionais.

A obra, executada entre 1907 e 1912, ficou a cargo de uma companhia norte-americana liderada pelo empresário Percival Farquhar, que teria enfrentado o mito de que a ferrovia seria impossível de construir “mesmo com todo o dinheiro do mundo”.

O que projetou a EFMM internacionalmente, porém, não foi apenas a proeza de engenharia, mas o custo humano por trás dela. Milhares de operários, vindos de dezenas de nacionalidades diferentes, muitos recrutados no Caribe, na Europa e em outras partes do mundo, morreram durante a construção, vítimas de malária, febre amarela, disenteria e outras doenças tropicais, além do isolamento extremo da floresta amazônica. 

Esse legado rendeu à ferrovia a alcunha internacional de “Ferrovia do Diabo” — “Devil’s Railway”, em inglês —, símbolo da perseverança humana diante de ambientes extremos. Foi também chamado de “trem fantasma” e “ferrovia da floresta e dos rios”. 

Porto Velho nasceu literalmente às margens da EFMM, em 1907, no mesmo movimento que ergueu a ferrovia. A cidade cresceu em torno dos pátios, oficinas e armazéns ferroviários, e boa parte da identidade histórica de Rondônia está diretamente ligada a esse patrimônio. Remanescentes como o Cemitério das Locomotivas, o pátio ferroviário e as antigas tr~es Três Caixas d’Água, hoje entre os principais pontos turísticos da capital, já são tombados em nível federal, pelo IPHAN, e em nível estadual, mas ainda estão fora da lista da UNESCO.

Complexo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré completou 114 anos de história. (Foto: Secom PVH RO)


Ferrovia do mundo 

É esse capítulo que a Prefeitura de Porto Velho agora tenta reescrever. A gestão municipal protocolou ofício oficial dirigido à Superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em Rondônia, pedindo apoio institucional para estruturar a candidatura da EFMM à Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO. 

O documento, assinado pelo prefeito Léo Moraes (Podemos), foi formalizado exatamente quando a ferrovia completou 114 anos, celebrado no último sábado (01-08-26) , e chega poucos dias depois de a UNESCO reconhecer os Teatros da Amazônia, o Teatro Amazonas, em Manaus, e o Theatro da Paz, em Belém, como Patrimônio Mundial, o primeiro título cultural da entidade concedido à Região Norte do Brasil.

No ofício, a Secretaria Municipal de Turismo, Esporte e Lazer (SEMTEL), por meio de sua Secretaria Executiva de Turismo, descreve a EFMM como “um verdadeiro memorial da imigração internacional, da engenharia ferroviária e da história social do trabalho, possuindo características singulares que a distinguem entre os grandes patrimônios ferroviários do mundo”.

Complexo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré conta a história de colonização de Porto Velho, Rondônia. (Foto: Secom PPVH- RO)

O documento solicita ao IPHAN a criação de um Comitê Técnico Interinstitucional, reunindo representantes do próprio IPHAN, do Ministério da Cultura, do Governo de Rondônia, da Prefeitura, de universidades, centros de pesquisa e da sociedade civil, com a finalidade de realizar estudos técnicos e científicos, levantar o histórico arquitetônico, arqueológico e documental do complexo ferroviário, elaborar o dossiê técnico para inclusão da EFMM na Lista Indicativa Brasileira do Patrimônio Mundial e estruturar formalmente o processo junto à UNESCO, conforme a Convenção do Patrimônio Mundial de 1972.

O pedido foi tornado público durante uma cerimônia de celebração dos 114 anos da ferrovia, que reuniu autoridades municipais, professores e estudantes da Fundação Marcelo Cândia em Porto Velho. Na ocasião, Léo Moraes definiu a capital rondoniense como “a capital mais acolhedora, o povo mais unido do Brasil”, declarando que “aqui nós somos exatamente o somatório de todos os estados do Brasil, em 50 nacionalidades”, numa referência direta à herança multicultural deixada pelos trabalhadores estrangeiros que construíram a EFMM. 

O prefeito também destacou o valor de resgatar essa memória, afirmando que “quando a gente remonta e reconhece o nosso passado, nós conseguimos também fazer com que o morador de hoje da nossa cidade tenha mais apreço, mais amor com a sua terra”. Léo Moraes ainda anunciou planos para revitalizar o entorno do complexo ferroviário, adiantando que a Prefeitura “quer colocar os vagões para que a população possa circular no nosso pátio” e que pretende “revitalizar a nossa beira-rio, revitalizar o nosso mercado de peixe, revitalizar o nosso Cemitério das Locomotivas”.

Não é a primeira tentativa de Porto Velho de abrir esse caminho. Em 2012, ano do centenário da ferrovia, chegou a ser instalado um comitê pró-candidatura que não avançou. Catorze anos depois, e recém-saída da aprovação dos Teatros da Amazônia pelo Comitê do Patrimônio Mundial da UNESCO, reunido em Busan, na Coreia do Sul, no fim de julho, a gestão municipal aposta no momento de projeção internacional da Amazônia brasileira para dar novo fôlego ao pedido. 

Como registra o ofício, “a preservação da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré representa um compromisso não apenas com a memória do povo rondoniense, mas com a história da humanidade”, e seu reconhecimento internacional “constituirá um importante instrumento de valorização da Amazônia brasileira, de fortalecimento da identidade nacional e de proteção de um patrimônio cuja relevância histórica permanece viva para as presentes e futuras gerações.

Unesco receberá pedido para ferrovia da Amazônia virar patrimônio mundial. (Foto: Secom PPVH RO)

Critérios para virar patrimônio mundial 

Para um local ou monumento ser reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO, ele deve possuir obrigatoriamente um Valor Universal Excepcional, o que significa que sua importância cultural ou natural transcende fronteiras e é inestimável para toda a humanidade. O primeiro passo para obter o título é cumprir pelo menos um dos dez critérios oficiais estabelecidos pela organização. 

Os critérios culturais buscam identificar obras-primas do gênio criativo humano, testemunhos únicos de civilizações antigas ou vivas, e monumentos que ilustram momentos significativos da história. Já os critérios naturais focam em áreas de beleza estética excepcional, registros geológicos da evolução da Terra e habitats fundamentais para a preservação da biodiversidade e de espécies ameaçadas.

Além de se enquadrar nesses critérios, o candidato precisa demonstrar rigorosamente a sua integridade e autenticidade. Isso significa que o local deve estar completo, contendo todos os elementos necessários para expressar o seu valor, e ser genuíno em sua forma, materiais e funções tradicionais. 

Por fim, a UNESCO exige a existência de um plano de gestão eficiente e de leis de proteção de longo prazo. Essa estrutura administrativa deve garantir que o patrimônio seja preservado contra o desgaste do tempo, o turismo desordenado e o avanço urbano, assegurando a sua integridade para as futuras gerações.

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