Corte de recursos e atraso de contribuições dos Estados Unidos ameaçam programas de assistência humanitária, inclusive no Brasil
A Organização das Nações Unidas (ONU) eliminou mais de 10 mil postos de trabalho em 2025, após a redução de recursos destinados ao funcionamento de suas agências e programas humanitários.
O número de funcionários passou de 130.948, em 2024, para 120.176 no ano seguinte, uma queda de aproximadamente 8%. Para 2026, o orçamento do Secretariado da ONU sofreu um corte de 7%, com previsão de US$ 3,45 bilhões em despesas. A organização também aprovou a extinção de outros 2,9 mil cargos e medidas de aposentadoria antecipada.
A redução dos recursos atingiu 21 das 41 agências e organismos das Nações Unidas, entre eles o Alto Comissariado para Refugiados (Acnur), a Organização Internacional para as Migrações (OIM) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
O porta-voz do secretário-geral António Guterres, Stéphane Dujarric, afirmou que a queda das contribuições comprometeu serviços de assistência. “O resultado foi dramático. As pessoas nos campos de refugiados passaram a receber menos alimentos e vacinas e tiveram menos acesso à educação. Programas inteiros foram encerrados. Com isso, as pessoas que dependiam dessa ajuda não receberam o que precisavam”, declarou.
No Brasil, o Acnur recebeu até agosto apenas 22% do orçamento necessário para manter suas atividades durante 2026, segundo o representante da agência no país, Davide Torzilli. A falta de financiamento ocorre em meio à chegada de cerca de 500 pessoas por dia a Roraima em busca de proteção internacional.
De acordo com Torzilli, a redução dos repasses já afetou o acesso de refugiados a programas de acolhimento. “A redução de recursos significa que algumas pessoas que anteriormente poderiam ser atendidas por programas apoiados pelo ACNUR ou por seus parceiros deixaram de ter acesso a esses serviços, enquanto outras passaram a receber um atendimento mais focalizado ou limitado, de acordo com critérios de vulnerabilidade e prioridades de proteção”, explicou.
Os Estados Unidos, responsáveis por aproximadamente 22% das contribuições ao orçamento regular da ONU, acumulam pagamentos em atraso e condicionam repasses a reformas na organização.
O país também reduziu doações voluntárias destinadas à assistência humanitária, setor no qual respondia por cerca de 45% dos recursos. Até 1º de outubro, 143 dos 193 países-membros haviam quitado suas contribuições de 2026. O Brasil, responsável por 1,4% do orçamento regular, efetuou em março o pagamento de US$ 44,8 milhões.