Acordo entre China e Estados Unidos e plano para reduzir importações ameaçam as exportações do Brasil; estudo projeta queda de 25% nas compras chinesas
O Brasil pode enfrentar uma redução nas exportações de soja para a China nos próximos anos, após o governo chinês ampliar acordos comerciais com os Estados Unidos e estabelecer metas para diminuir a dependência de alimentos importados.
O país é o principal destino do grão produzido pelos brasileiros, mas a retomada das compras de soja norte-americana aumenta a concorrência. Pequim assumiu o compromisso de adquirir 25 milhões de toneladas dos Estados Unidos por ano, entre 2026 e 2028, além de pelo menos US$ 17 bilhões anuais em produtos agrícolas daquele país.
Apesar da aproximação comercial, a soja dos Estados Unidos enfrenta tarifa de 13% para entrar na China, enquanto o produto brasileiro paga 3%. A diferença de dez pontos percentuais contribui para a posição do Brasil no mercado chinês.
“Essa diferença de 10 pontos percentuais ajuda a preservar a competitividade brasileira, pelo menos no curto prazo, mesmo com a aproximação bilateral”, afirma Patrícia Ellen, líder global de Natureza e Sistemas Alimentares da consultoria Systemiq. Para Larissa Wachholz, especialista em China, o risco aumenta caso os chineses ampliem as compras dos norte-americanos além do volume previsto no acordo.
Soja brasileira enfrenta risco de queda nas exportações
Um relatório da Systemiq projeta que as importações chinesas de soja poderão cair 25% até 2030, o equivalente a aproximadamente 23,5 milhões de toneladas em relação a 2025. A redução está associada aos investimentos da China na produção de alimentos, à substituição de ingredientes nas rações e ao desenvolvimento de fontes de proteína.
“Basicamente, esses 23,5 milhões de toneladas de redução projetada equivalem a praticamente todas as exportações americanas de soja para a China em 2024 ou a um terço das exportações brasileiras destinadas ao país naquele ano”, afirma Patrícia Ellen. O cenário apresentado pela consultoria é uma projeção condicionada ao cumprimento das metas chinesas.
A possibilidade de queda na demanda também preocupa produtores por seus efeitos sobre os preços, a renda no campo e os investimentos na cadeia da soja. Lucas Costa Beber, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja de Mato Grosso (Aprosoja-MT), aponta a redução da população chinesa como outro fator de risco para o consumo do grão.
Entre as alternativas discutidas pelo setor estão a abertura de mercados, inclusive na Índia, o processamento da soja para produção de óleo e biocombustíveis e a ampliação do consumo interno. Larissa Wachholz também defende que produtores acompanhem a evolução das metas chinesas antes de decidir pela expansão das áreas de cultivo.


